Em 1948, depois de uma guerra civil que deixou centenas de mortos, a Costa Rica tomou uma decisão que parecia saída de uma reunião particularmente optimista: acabou com o exército. Não foi uma metáfora, nem uma campanha publicitária para turistas; foi mesmo a eliminação do exército como instituição permanente.
Em 1 de Dezembro daquele ano, José Figueres Ferrer, líder da Junta Fundadora da Segunda República, realizou no antigo Quartel Bellavista uma cerimónia simbólica em que decretou a dissolução das forças armadas. Em 1949, a nova Constituição transformou a decisão numa regra constitucional: o artigo 12 aboliu o exército como instituição permanente e atribuiu a segurança interna a forças policiais civis. Para um país que acabara de sair de uma guerra, a ideia tinha qualquer coisa de provocador: em vez de comprar mais armas, decidiu comprar mais escolas.
A Construção Histórica da Paz e a Economia do Café
A história que levou a esse momento, porém, não era propriamente pacífica. A Costa Rica tinha conquistado a independência de Espanha em 1821, integrada no processo que pôs fim ao domínio colonial espanhol na América Central.
Durante o século XIX, consolidou uma economia baseada sobretudo no café, que ajudou a financiar estradas, caminhos-de-ferro, edifícios públicos e a própria transformação de San José numa capital moderna para os padrões da época. Mais tarde, a banana tornou-se igualmente importante e levou companhias estrangeiras e trabalhadores de diferentes origens para o país.
A Costa Rica construiu gradualmente uma tradição de instituições civis e eleições, embora com conflitos políticos e períodos de tensão. A fama de país pacífico não significa, portanto, que a paz tenha aparecido espontaneamente; foi uma construção histórica, com alguns episódios bastante pouco pacíficos pelo caminho.
A Guerra Civil de 1948 e a Decisão de Abolir as Forças Armadas
O grande choque chegou em 1948. Uma disputa eleitoral transformou-se numa crise constitucional e acabou numa guerra civil entre forças leais ao governo e os partidários de José Figueres.
O conflito durou cerca de cinco semanas e terminou com a vitória das forças de Figueres. A Junta Fundadora que assumiu o poder decidiu então reorganizar profundamente o Estado. A abolição do exército não surgiu apenas de uma paixão repentina pela tranquilidade: havia também razões políticas. Uma força armada nacional podia transformar-se numa ameaça para as instituições civis, sobretudo num país onde os militares tinham desempenhado um papel político relevante.
Assim, eliminar o exército significava também retirar-lhe a possibilidade de voltar a decidir quem governava. É uma solução bastante radical para o problema dos golpes de Estado: se a instituição que pode organizar o golpe deixa de existir, pelo menos já não pode convocar a reunião.
O Investimento em Educação, Saúde e Segurança Civil
A decisão teve ainda uma consequência prática muito importante. A Costa Rica passou a concentrar os recursos do Estado em áreas como educação, saúde e segurança civil, em vez de manter uma estrutura militar permanente.
A própria Presidência costarriquenha apresenta essa transformação como parte da construção de uma tradição civilista e relaciona-a com o investimento posterior em educação e saúde. Isso não significa que o país tenha simplesmente pegado no antigo orçamento militar e dividido o dinheiro entre escolas e hospitais como quem reparte uma pizza.
O desenvolvimento social foi resultado de muitas políticas ao longo de décadas, e não apenas da ausência do exército. Mas a escolha institucional criou uma diferença fundamental: a segurança nacional deixou de estar organizada em torno de forças armadas permanentes e passou a depender de forças policiais civis, enquanto o país consolidava um modelo político em que o poder militar não ocupava o centro da vida pública.
A Estabilidade Democrática e o Desenvolvimento Social
E funcionou? Bem, depende do que se entende por “funcionar”. A Costa Rica não se transformou num país sem problemas só porque decidiu guardar os tanques no armazém — até porque nem sequer manteve esse tipo de estrutura.
Continuou a enfrentar pobreza, desigualdade, corrupção, criminalidade e conflitos políticos, como praticamente todos os países. Também não ficou magicamente protegida das ameaças externas. A diferença esteve noutra coisa: durante décadas, conseguiu manter instituições civis estáveis e eleições regulares sem que os militares se transformassem no árbitro habitual da política.
O país tornou-se conhecido pela estabilidade democrática na América Central e construiu sistemas públicos de educação, saúde e segurança social que ajudaram a elevar os indicadores sociais. A ideia de que uma democracia precisava necessariamente de um exército poderoso para sobreviver acabou por receber, no pequeno país centro-americano, uma resposta bastante incómoda.
O Ecoturismo, as Florestas Tropicais e a Transição Energética
Depois veio outra transformação: a Costa Rica descobriu que podia fazer do ambiente uma espécie de activo nacional. Florestas tropicais, vulcões, parques nacionais e uma biodiversidade extraordinária transformaram o país num dos destinos mais conhecidos do ecoturismo.
A recuperação florestal foi particularmente impressionante: os dados mais recentes do Banco Mundial indicam que as florestas representam cerca de 60,4% do território costarriquenho. A energia também seguiu uma trajectória singular, com uma matriz eléctrica fortemente baseada em fontes renováveis. Não foi apenas uma questão de abraçar árvores e esperar que os turistas aparecessem: houve políticas públicas, investimento em infra-estruturas e mecanismos de conservação que ajudaram a transformar a natureza numa parte importante da economia nacional. A Costa Rica percebeu que uma floresta pode ter valor mesmo quando ninguém está a tentar cortá-la.
Os Desafios Atuais de Segurança e o Contexto Político em 2026
Mas a ausência de exército não significa ausência de problemas de segurança. Nas últimas décadas, o país passou a enfrentar com maior intensidade o tráfico internacional de droga e o crime organizado, aproveitando a sua posição geográfica entre grandes mercados consumidores e zonas produtoras de drogas.
Em 2023, a Costa Rica registou uma taxa de homicídios excepcionalmente elevada para os seus padrões históricos, e a segurança tornou-se uma questão central do debate público. Em 2026, a nova presidente Laura Fernández assumiu uma agenda fortemente centrada no combate à criminalidade e chegou a defender que operações terrestres dos Estados Unidos poderiam contribuir para a segurança nacional, embora tenha esclarecido que não existiam planos concretos nesse sentido e que qualquer autorização dependeria das instituições costarriquenhas. Ou seja, abolir o exército em 1948 não eliminou a necessidade de discutir segurança em 2026. A História, aparentemente, não oferece planos vitalícios.
Ainda assim, a experiência costarriquenha continua a ser uma das experiências políticas mais curiosas do continente. Um país que atravessou uma guerra civil decidiu que não queria voltar a colocar um exército permanente no centro do Estado e transformou essa escolha numa norma constitucional. Depois construiu uma democracia relativamente estável, investiu fortemente em educação e saúde, protegeu uma parte significativa do seu território natural e criou uma economia onde o turismo e os serviços ganharam enorme importância.
Não significa que a Costa Rica tenha descoberto a fórmula universal da paz — seria demasiado fácil, e a História raramente oferece coisas tão simpáticas. Significa apenas que, em 1948, alguém teve a ideia aparentemente extravagante de que um país podia proteger-se sem manter um exército permanente. Décadas depois, a ideia continua de pé. E talvez a maior ironia seja esta: num continente onde muitos governos passaram boa parte do século XX a perguntar como controlar os militares, a Costa Rica resolveu o problema de uma maneira bastante radical — decidiu simplesmente não os ter.

